quinta-feira, 18 de abril de 2013

Zacarias 14.9 reforça a tese unicista contra a Trindade?


Preparado por Gilson Barbosa

Zacarias 14.9 reforça a tese unicista contra a Trindade?

“E o Senhor será rei sobre toda a terra; naquele dia um será o Senhor, e um será o seu nome”.

Monarquianismo, patripassionismo ou sabelianismo são todos conceitos que expressam o intenso desejo e objetivo, ainda nos primeiros séculos da Igreja cristã, de combater o que seus defensores chamavam de triteísmo, referência ao reconhecimento de três deuses. Na tentativa de defender o monoteísmo, alguns apologistas da Igreja primitiva acabaram abandonando a doutrina da Trindade Divina: Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas que subsistem eternamente numa única divindade (unidade composta).

Foi Teodoto de Bizâncio (cerca de 190 a.D.) quem primeiro ensinou que Jesus era apenas um ser humano movido e impulsionado pelo Espírito Santo. Em outras palavras, para ele, Jesus não era essencialmente e substancialmente Deus ou, sequer, conjugava as duas naturezas (humana e divina) em si (união hipostática). Esse ensino é chamado de “monarquianismo dinâmico”.

Outros preferiram reconhecer a divindade de Jesus, mas o identificaram (o Filho) com o próprio Pai. Essa doutrina é conhecida, ainda hoje, como “monarquianismo modal” ou “patripassionismo”. A Enciclopédia histórico e teológica nos informa que “patripassionismo é a doutrina segundo a qual o Pai se encarnou, sendo Ele quem nasceu de uma virgem e quem sofreu e morreu na cruz”.

Sabélio, bispo de Roma (séc. 3o), promoveu avanços no sistema modal ao ensinar a respeito de um Deus “processado”. No caso de sua doutrina, Deus teria se apresentado à humanidade de três formas: como Pai (Antigo Testamento), como Filho (Novo Testamento) e como o Espírito Santo (período da graça), mas esses “três seres” não estão separados em personalidades. Didaticamente, é como se um único e mesmo ator de teatro entrasse no palco por três vezes e em cada oportunidade trocasse apenas a máscara.

Considerando esse brevíssimo panorama histórico, podemos pensar no texto de Zacarias: “Naquele dia, um será o Senhor”. No idioma hebraico, existem duas palavras para exprimir a noção de “um” ou “único”. Quando as expressões bíblicas do Antigo Testamento apresentam “um” ou “único” no sentido absoluto, fazem uso do termo yachid: “E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque...” (Gn 22.2). Note que Isaque tinha um irmão, Ismael, mas é chamado de único, devido à promessa está relacionada apenas a Abraão e Sara. Contudo, há uma unidade que chamamos de composta, expressa pelo termo hebraico echad: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gn 2.24). Pois bem, o que os unicistas têm de considerar antes de advogarem sua doutrina a partir de Zacarias é justamente isso: o profeta faz emprego da palavra echad, unidade composta, e não de yachid, unidade absoluta.


Por que o nome de Jesus não é Emanuel?

“Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel” (Is 7.14).

O nome Jesus não é apenas um apelativo ou um designativo. Foi conferido por meio do anjo Gabriel à Maria: “Eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus” (Lc 1.31). Sendo assim, Maria não poderia ter dado outro nome ao menino que estava para nascer. Jesus é o nome do Messias.

Quanto à essa questão, há um fator que deve ser esclarecido e considerado: os orientais são realmente diferentes em diversos aspectos vigentes na cultura ocidental, e isso ocorre também com o nome. A língua dos judeus possui alguns hebraísmos, ou seja, “certas expressões e maneiras peculiares do idioma hebreu que ocorrem em nossas traduções da Bíblia”.

Então, a intenção do escritor e profeta era manifestar que o Messias não somente seria o Deus encarnado habitando com e entre os homens, mas também que estaria realizando a vontade de Deus. A língua hebraica se vale de formas poéticas para se expressar, e isso exige, de cada estudante da Bíblia, muito cuidado, para não se confundir. Para citar um outro exemplo, em Isaías 9.6 temos a afirmação de que Jesus seria chamado “Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”.

Como ser portar diante de tantos nomes? Qual deles deveria ser o nome do Messias? Na verdade, trata-se de outro hebraísmo. Note-se, também, que esses “nomes” foram anunciados por profetas, o que exprime o anseio dos judeus de presenciar e atestar a chegada do Messias. Jesus é a forma grega do hebraico Yeshua (Josué), que significa “O Senhor salva” (Js 1.1). O termo define a futura missão do Filho de Maria, que é salvar o seu povo dos seus pecados (v.21).


Alguns atributos de Deus são inerentes ao ser humano?

Podemos delinear a natureza de Deus da seguinte maneira: natural e moral; metafísico e físico; imanente e transcendente. É a bipartição de seus atributos em comunicáveis e incomunicáveis.

Logicamente, partimos do princípio de que o ser humano não tem capacidade intelectual para compreender a natureza de Deus em sua plenitude, visto que “Deus é Espírito” (Jo 4.24), podemos e conseguimos conhecer somente aquilo que a nossa mente alcança. Pois, como afirma o salmista, “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites?”. Moisés também conhecia perfeitamente as nossas limitações: “As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém, as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos” (Dt 29.29).

Contudo, Deus “implantou” no ser humano algo de si, conforme especifica o livro do princípio “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). A pergunta é: em que consistiria essa semelhança?

Segundo o estudo teontológico, há em Deus a natureza que pode e é compartilhada com o ser humano, aquilo que chamaremos de “atributos comunicáveis”. São qualidades como o amor, a santidade, a justiça, a mansidão, a bondade, etc. É importante, porém, compreender que essas virtudes foram dadas ao ser humano de forma finita, limitada, o que equivale a dizer que ninguém, em vida, será plenamente santo, justo, bom, etc.

A nós, humanos e cristãos, resta-nos a responsabilidade de buscar cada vez mais as qualidades comunicáveis de Deus, pois, o próprio Jesus ordenou: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.48). Todavia, jamais podemos nos esquecer que caminhamos para a perfeição em Cristo: “... até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4.13).


Os irmãos literais de Jesus eram, na verdade, seus primos?

Em Mateus 12.47, na Bíblia católica, na versão dos Monges Maredsous, o tradutor teceu o seguinte comentário, sobre os “irmãos” de Jesus, no rodapé da página: “Irmãos: na língua hebraica essa palavra pode significar também ‘parentes próximos’ ou ‘primos’, como nesse caso. Exemplo: Abraão, tio de Lot, chama-o com a designação de irmão (Gn 11.27; 13.8)”.

A palavra “irmão”, no hebraico, pode significar primo, mas, mesmo em tais casos, temos de ser cautelosos. Geralmente, quando a palavra “irmão” é empregada no sentido de parente próximo, o contexto esclarece a questão: “Os filhos de Merari: Mali, e Musi; os filhos de Mali: Eleazar e Quis. E morreu Eleazar, e não teve filhos, porém filhas; e os filhos de Quis, seus parentes, as tomaram por mulheres” (1Cr 23.21,22). Sem contar que o Novo Testamento foi escrito em grego e não em hebraico.

Não devemos nos esquecer de que quando o Novo Testamento faz referências aos irmãos de Jesus, os contextos não trazem nenhum tipo de esclarecimento adicional, como acontece no Antigo Testamento. Além disso, os escritores sabiam a diferença entre os termos “irmão” (adelphós), “primo” (anepsiós) e “parentes” (sunggenes). Mesmo Paulo, que usava muitas metáforas, sabia usar com distinção essas palavras. Tanto é que escreveu sobre os “irmãos” de Jesus sem deixar nenhuma dúvida quanto ao laço carnal entre o Senhor e seus irmãos. Vejamos:

 

1Coríntios 9.5

Português

“Não temos nós direito de levar conosco esposacrente [irmã], como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?”

Grego transliterado

“mê ouk ekhomen exousian adelphên gunaika periagein ôs kai oi loipoi apostoloi kai oi adelphoitou kuriou kai kêphas”

Septuaginta

mh ouk ecomen exousian adelfhn gunaika periagein wV kai oi loipoi

apostoloi kai oi adelfoi tou kuriou kai khfaV


 

Gálatas 1.19

Português

“Mas não vi a nenhum outro dos apóstolossenãoa Tiago, irmão do Senhor

Grego transliterado

“eteron de tôn apostolôn ouk eidon ei mê iakôbon ton adelphon tou kuriou”

Septuaginta

eteron de twn apostolwn ouk eidon ei mh iakwbon ton adelfon tou kuriou



Não havia motivo de confusão. O apóstolo empregava os termos sem problemas: “Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, o primo (anepsiós) de Barnabé...” (Cl 4.10).

“Saudai a Herodião, meu parente (sungene)” (Rm 16.11).

Caso a tese católica estivesse correta, o apóstolo poderia muito bem ter usado a expressão hoi anepsiós Kyriou (primos do Senhor) e não adelphói tou Kyriou (irmãos do Senhor), até porque os irmãos de Jesus estavam vivos quando o apóstolo escreveu as duas epístolas.

Diante do exposto, a única conclusão plausível a que podemos chegar é que os “irmãos” de Jesus eram realmente seus irmãos legítimos, queremos dizer, nascidos do ventre de Maria.

Participantes desta edição:

Eliseu Camilo
Doris Stalschus
Marcos Lima
Rodolfo Santos Cunha

Referências bibliográficas:

Bíblia Apologética de Estudo Ampliada. Instituto Cristão de Pesquisas, 2005.
ELWEL, Walter A. Enciclopédia histórico e teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo: Editora Vida Nova, 1ª ed., 1990, p. 543.
LUND, E & NELSON, C. Hermenêutica. São Paulo: Editora Vida, 1968.
GRUDEM, Wayne. Teologia sistemática.São Paulo: Edições Vida Nova, 1999.

O texto de 1Pedro 4.8 pode ser usado para justificar os pecados pelas obras?



“Mas, sobretudo, tende ardente amor uns para com os outros; porque o amor cobrirá a multidão de pecados”.

Antes de mais nada, é bom deixar claro que as obras são de extrema importância para o cristão, que não pode deixar de exercê-las. As obras são importantes por, no mínimo, duas razões: 1) demonstram para as pessoas como os crentes que imitam a Cristo procedem; 2) glorificam a Deus: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.16).

É importante notar que as obras, em si mesmas, não são objetos de preocupação e ênfase soteriológica, até porque há pessoas que perdem a essência do que é desenvolver, segundo o padrão de Cristo e das Escrituras, as boas obras: “E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes” (Mt 23.5).

Para Deus, somente após a pessoa ingressar em seu reino celestial é que as obras que pratica passam a ter valor, não antes. Além disso, a Bíblia fala de obras mortas: “Por isso, deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus” (Hb 6.1). Em matéria de fé e salvação, o projeto de Deus antagoniza os ideais humanos que se baseiam em obras: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). Mas, embora não sejamos salvos pelas obras, a bondade e a benignidade devem ser buscadas pelos salvos: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10), e isso, mais intensamente do que quando não éramos salvos em Cristo, porque noutro tempo éramos gentios na carne, “mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cris
to chegastes perto” (Ef 2.13b).

A expressão que causa dúvidas em 1Pedro 4.8 é a que diz que “o amor cobrirá a multidão de pecados”. Segundo interpretações indoutas, se o texto afirma claramente que há pecados que são perdoados com o envolvimento desse sentimento afetivo, então há algo nas obras que pode trazer salvação à humanidade à parte de Cristo. Sendo assim, conclui-se que uma pessoa que dispense amor à outra poderia se salvar. Mas isso não é bíblico. A salvação está em Cristo: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4.11), e em sua obra vicária: “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1Pe 1.18,19).

Não vamos amar o próximo por esta causa? De maneira nenhuma! O instrumento aferidor para saber se alguém é discípulo de Cristo é o amor: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13.35).


Por que Jesus amaldiçoou a figueira por não produzir figos se o texto de Marcos 11.13 deixa claro que não era o tempo propício para isso?

“E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos”


Pelos relatos bíblicos, notamos que Jesus entrou no templo num dia de domingo, à tarde, e observou tudo ao seu redor. Logo depois, foi para Betânia, onde passou a noite, possivelmente na casa de Lázaro, irmão de Marta e Maria. No dia seguinte, no caminho, Jesus teve fome e foi procurar fruto em uma figueira que encontrou à beira da estrada. Não encontrando fruto, o Senhor amaldiçoou a figueira, que, Imediatamente, ficou seca. Alguns ficam consternados com essa narrativa, pois vêem nesse episódio uma atitude subjetiva e inexorável de Jesus. Afinal, por que Ele teve essa atitude? Estaria Ele irado? Estaria Ele exibindo seu poder?

O historiador Marcos (11.13) faz algumas observações interessantes. Acompanhe o relato.

Passando pela estrada, Jesus observou “de longe uma figueira que tinha folhas”, e, ao presenciar as folhas, “foi ver se nela acharia alguma coisa”. Esse detalhe é importantíssimo, visto que, “quando ocorre a primeira maturação, as folhas ainda não estão completamente formadas (Ct 2.13)”. Mas ocorreu que “chegando a ela, não achou senão folhas”. Como havia folhas se ainda não havia acontecido a maturação? O fruto deveria preceder as folhas! Notemos que se trata de uma exceção. Não avistando frutos, Jesus lança uma sentença contra a figueira: “nunca mais alguém coma fruto de ti”. Mateus 21.19 encerra dizendo que “a figueira secou imediatamente”.

Apesar de ter uma abundância de folhas, “aquela figueira, entretanto, fora um ludíbrio”. Em outras palavras, aquela figueira evidenciava ser o que não era. Mostrava ser uma coisa quando, na realidade, era outra.

Podemos extrair duas lições desse episódio. Primeira, pertencemos a Cristo para darmos frutos para Deus (Rm 7.4). Segunda, a inexistência de frutos espirituais no crente comprova que não pode permanecer no meio do povo de Deus, portanto, é desarraigado de Cristo (Jo15.2).

Já Gleason Archer observa que “pode muito bem ter acontecido que Jesus viu naquela figueira estéril que ele encontrara pelo caminho de Jerusalém, naquela segunda-feira de manhã, da semana santa, um lembrete vívido da falta de frutos em Israel, como nação de Deus. Por essa razão, usou aquela árvore como ilustração dramática de sua lição aos discípulos”.


Quem é a senhora mencionada em 2João 1,5?

“O presbítero à senhora eleita, e a seus filhos, aos quais amo na verdade, e não somente eu, mas também todos os que têm conhecido a verdade [...] E agora, senhora, rogo-te, não como se escrevesse um novo mandamento, mas aquele mesmo que desde o princípio tivemos: que nos amemos uns aos outros”.


Devido à complexidade do assunto, é importante recorrer à língua original do Novo Testamento para amenizar a dificuldade. No original grego, tanto no primeiro como no quinto versículo, a palavra “senhora” é (kuria). Entre os vários pontos de dificuldades, está a questão relacionada à derivação da palavra “igreja”, que é kuriake. A Enciclopédia explicativa de dificuldades bíblicas nos esclarece que “entre os romanos e os atenienses esta palavra significava o mesmo que (ekklesia), termo utilizado para designar uma assembléia de igreja”. Um importante Léxico Grego acrescenta que “´senhora` pode se referir ou a uma pessoa ou, mais provavelmente, a uma congregação de importância”.

Contudo, alguns não apóiam essa defesa e dizem tratar-se de uma irmã influente na igreja, ou uma senhora. Sendo assim, essa pessoa era eleita e se chamava Kyria. Ou era uma senhora e se chamava Eleita. Russel Champlin julga ser incomum alguém se dirigir à igreja com a expressão “senhora eleita”. Ele diz que o texto faz alusão a “alguma dama bem conhecida pela sua piedade, em cuja casa a igreja se reunia, ou que exercia grande influência em certas congregações da Ásia Menor, talvez como diaconisa”.

Uma das maiores questões quanto à possibilidade de essa senhora ser a Igreja é perceber na essência da carta certo elemento condizente com a expressão “filhos”. Estaria João tratando apenas com os filhos dessa senhora? Seria possível isso? Sim. Mas tais filhos também poderiam ser os membros da Igreja de Cristo. Essa incógnita se estabelece por causa da ambigüidade que permeia o texto, interpretado hoje por nós a séculos de distância de sua produção original.

Se o nome dessa senhora fosse Eleita, existiriam, então, duas irmãs com o mesmo nome, o que, ainda que não seja impossível, é incomum: “Saúdam-te os filhos de tua irmã, a eleita. Amém” (2Jo 1.13). Se o nome fosse senhora ou Kyria, não seria adequado dogmatizar a questão, pois em 1Pedro 5.13 a Igreja é chamada de eleita: “A vossa co-eleita em Babilônia vos saúda, e meu filho Marcos”.

Se não podemos fechar de forma categórica o assunto, até porque não é tão prioritário assim, resta-nos ponderar que o objetivo da carta escrita é muito mais importante, pois é artigo de fé. De que trata a epístola?

A carta é uma exortação para se guardar das falsas doutrinas, desviando-se delas e dos que a professam. Há um alerta sério para aqueles que deixaram a sã doutrina e passaram a professar algo diferente daquilo que foi ensinado.

Referências bibliográficas:

ARCHER, Gleason. Enciclopédia de dificuldades bíblicas. São Paulo: Editora Vida, 1997.
COLEMAN, William L. Manual dos tempos e costumes bíblicos. Minas Gerais: Editora Betânia, 1991.
GINGRICH, F. Wilbur & DANKER, Frederick W. Léxico do N.T. Grego/Português. São Paulo: Edições Vida Nova, 2003.
VILA, Samuel. Enciclopédia explicativa de dificuldades bíblicas. Barcelona: Libros Clie, 1981.

Preparado por Gilson Barbosa

Participantes desta edição:

Marcelino Freitas
Eliabe Bernardo
Sandro Marcus Sá

Quem foram os ebionitas?


Os ebionitas podem ser incluídos no grupo dos judaizantes, facções dissidentes e presentes no judaísmo-cristão do século 1o, notadamente em Jerusalém. O grupo insistia em guardar a lei de Moisés como uma observância não só para si, mas para todos os que se convertessem entre os gentios. Elementos como circuncisão, guarda do sábado e vegetarianismo faziam parte da ética ebionita. Tudo indica que obtiveram esse designativo, ebionitas, do termo hebraico ebyônîm, uma referência aos “pobres”. A princípio, era um predicado honroso para os cristãos em Jerusalém. Mas, geralmente, quando se faz referência aos ebionitas como comunidade religiosa, trata-se de uma seita herética que emigrou para a região Leste do Jordão e misturou, de forma inadequada, elementos judaicos e cristãos. Passagens bíblicas, como, por exemplo, Mateus 5.3 e Lucas 4.18, eram advogadas pelo ebionismo para sustentar suas crenças, porque seus adeptos observavam um estilo de vida baseado no ascetismo.

Sobre a origem ebionita, a Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã informa que “Epifânio foi o primeiro dos pais da igreja a dizer que se originaram [os ebionitas] depois da destruição do templo, em 70 d.C.”. A atribuição da fundação do grupo é conferida, pelos estudiosos, a um líder da comunidade judaica conhecido como Ebion.

No que concerne ao cânon bíblico, aderiram apenas à Tanach (Bíblia Judaica) e ao evangelho de Mateus. Pregavam que as epístolas paulinas deviam ser rechaçadas por conterem ensinos antiebionitas. Aceitavam, também, o Evangelho dos hebreus, sendo que esse livro é apócrifo. Segundo alguns pesquisadores, o Evangelho dos hebreus é uma literatura comumente empregada pelos nazarenos e pelos ebionitas. Epifânio, bispo de Constância, faz menção de um outro evangelho, o dos ebionitas.

Os ebionitas não aceitavam a cristologia ortodoxa, pois rejeitavam completamente a divindade de Cristo, colocando-o no mesmo nível dos demais profetas do Antigo Testamento. Para eles, Cristoe nada mais era do que o novo Moisés. Negavam sua preexistência, sua encarnação e seu nascimento virginal. No conceito ebionita, embora Jesus fosse o Messias, era puramente humano. Somente no batismo Jesus foi ungido como Messias, ou seja, adotado como Filho de Deus. Em sua opinião, Jesus era um judeu fiel, piedoso, profeta e mestre inigualável.
Apesar da reconhecida importância da teologia e ética judaica no contexto cristão, todavia, cristianismo e ebionismo são mutuamente excludentes. Se o cristianismo, em sua origem, não fosse delineado conforme a teologia evangélica e paulina, não basearia seus ensinos nos de Cristo: “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a colocar-vos debaixo do jugo da servidão” (Gl 5.1).


Como entender a expressão “banco”, em Lucas 19.23?

“Por que não puseste, pois, o meu dinheiro no banco, para que eu, vindo, o exigisse com os juros?”.

Os bancos surgiram da necessidade de se guardar as moedas em lugar seguro. Uma informação importante é que “os primeiros bancos reconhecidos oficialmente surgiram na Inglaterra, e a palavra bank veio da italiana banco, peça de madeira que os comerciantes de valores, oriundos da Itália e estabelecidos em Londres, usavam para operar seus negócios no mercado público londrino”.

Quando analisamos as palavras bíblicas, devemos considerar alguns fatos. Entre eles, o mais importante é observarmos a palavra no idioma original. As versões portuguesas interpretaram como “banco” o que a língua grega traz como “mesa”. No original, o termo é trápeza. As palavras “banqueiros” e “banco”, devem ser entendidas à luz do contexto sociológico da época, o que nos causa estranheza hoje, pois as instituições bancárias, na atualidade, são verdadeiros monumentos de multiforme processo financeiro.

Havia cobranças de juros, em caso de empréstimos no período veterotestamentário, aos que fossem estrangeiros (Dt 23.19,20). Contudo, nem todos os judeus consentiam no processo de empréstimo a juros na antiga nação judaica: “Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem darás do teu alimento por interesse” (Lv 25.37). Na verdade, os “verdadeiros bancos e negócios bancários foram estabelecidos em Israel somente após o exílio babilônico”.

Em uma de suas parábolas, Jesus narra a parábola do “tesouro escondido”, que trata de um homem que, ao encontrar um portentoso tesouro em um campo, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele terreno, para depois tomar posse do tesouro (Mt 13.44).

Quem, no seu perfeito senso de responsabilidade, esconderia um tesouro, algo de inestimável valor, debaixo da terra? Devido às pilhagens, às guerras ou às incertezas políticas, os prósperos sempre procuravam ser precavidos. Os mais abastados financeiramente guardavam suas riquezas sob os cuidados de uma guarda, na “casa do tesouro” (2Rs 20.13). Os demais tinham de esconder seu tesouro em algum lugar, motivo pelo qual o homem da parábola em questão encontra o tesouro enterrado. Deve ficar entendido que havia o sistema “bancário” da época, no qual as pessoas investiam suas moedas e bens para que pudessem, mais tarde, usufruir os juros. Esse dado é importante para evidenciar a situação ainda precária do que é chamado na Bíblia de “banco” ou “banqueiros”: “Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros” (Mt 25.27; Lc 19.23; Mt 25.27).

Champlin, comentando sobre esse texto, diz que havia um “antigo costume dos cambistas efetuarem seus comércios em público, diante de uma mesa onde o dinheiro era lançado. Esses cambistas negociavam o dinheiro em troca de uma taxa, e pagavam juros aos investidores”. Portanto, nos dias de Jesus, esses cambistas é que eram considerados e chamados de “banqueiros”.


Em 2Coríntios 11.17, Paulo está contradizendo os ensinos de Jesus?

“O que digo, não o digo segundo o SENHOR, mas como por loucura, nesta confiança de gloriar-me”.

É de salutar importância que a pessoa aceite e entenda que a Bíblia é a inerrante e infalível Palavra de Deus. Se ela, porém, desqualifica a Bíblia diante de qualquer coisa, então passa a procurar e a enxergar tão-somente as “contradições” bíblicas. O diabo foi o primeiro a dizer o que Deus não disse, porque sentia ódio por Deus e por sua criatura, o homem.

O que as pessoas chamam de “contradições bíblicas” não passam de dificuldades em entender a Palavra de Deus. Contudo, essa dificuldade não é o mesmo que impossibilidade, obscuridade em compreendê-la. Há, para isso, escolas teológicas, cursos bíblicos para obreiros e leigos em geral, muitos livros de hermenêutica, conhecimento indutivo, etc. Agostinho, prontamente, disse: “Se estamos perplexos por causa de aparente contradição nas Escrituras, não nos é permitido dizer que o autor desse livro tenha errado; mas ou o manuscrito tinha falhas, ou a tradução está errada, ou nós não entendemos o que está escrito”. É bom que se entenda que manuscrito é uma coisa e cópia original das Escrituras é outra.

Uma das coisas que aprendemos no estudo bibliológico é que a convicção e a certeza da autoridade da Bíblia provêm do estudo interno do Espírito Santo na vida da pessoa. Alguém que não tem em si o Espírito Santo (Jo 14.17) não foi regenerada (Jo 3.6). Portanto, é natural (1Co 2.14) e não tem capacidade para entender as coisas espirituais (1Co 2.14). As dificuldades são dirimidas quando há o testemunho interno do Espírito Santo em nosso coração.

O apóstolo Paulo tinha a Palavra de Deus com reverência e reconhecia que ela era singular, única: “Por isso também damos, sem cessar, graças a Deus, pois, havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas (segundo é, na verdade), como palavra de Deus, a qual também opera em vós, os que crestes” (1Ts 2.13).

Em outro texto, Paulo reconhece que o evangelho que pregava lhe fora revelado por nosso Senhor Jesus Cristo: “Mas faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.11,12).

O apóstolo Pedro, ao mencionar o cuidado que Paulo tinha com os irmãos, refere-se aos seus escritos como tendo autoridade escriturística, tanto quanto os demais livros bíblicos: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2Pe 3.15,16).

Quando Paulo afirma: “Digo, porém, isto como que por permissão e não por mandamento” (1Co 7.6); ou: “O que digo, não o digo segundo o SENHOR” (2Co 11.17), não quer dizer, com essas expressões, que a Palavra de Deus está em contradição com outros textos, como, por exemplo, o de 2Timóteo 3.16, que diz: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça”.

No mínimo, entendemos que Paulo está tratando de um assunto que, segundo seu ponto de vista, não fere, em nada, a sã doutrina de nosso Senhor Jesus Cristo e das Escrituras em geral. Associar 2Timóteo 3.16 com 1Coríntios 7.6 e 2Coríntios 11.17 e afirmar que isso é contradição, implica em pelo menos dois erros: associação indevida de textos e desconhecimento das regras de interpretação bíblica. Devemos tomar “cuidado com a Bíblia na boca do diabo”.

Referências bibliográficas:

Bíblia Apologética. Instituto Cristão de Pesquisas, 2005.
GEISLER, Norman & HOWE Thomas. Enciclopédia manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições da Biblia”. Editora Mundo Cristão, 1999.
ELWEL, Walter A. Enciclopédia histórico-teológica da Igreja cristã. Editora Vida Nova, 1998.
MARSHALL, I.Howard. Atos: introdução e comentário. Editora Vida Nova, 1982.
CHAMPLIN, Russel Norman. Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Editora Candeia, 1995.
CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclopédia de teologia e filosofia. Editora Candeia, 1995.
http://www.engetecno.com.br/chourico.htm

Preparado por Gilson Barbosa

Participantes desta edição

Antônio Porto Rosa Filho
João Batista Freire
Reynaldo dos Santos

 

or que Daniel não foi jogado na fornalha de fogo ardente com seus amigos, afinal, não estavam juntos (Dn 3.1-30)?


Por que Daniel não foi jogado na fornalha de fogo ardente com seus amigos, afinal, não estavam juntos (Dn 3.1-30)?

O reino de Babilônia era dividido em províncias. Daniel foi nomeado governador sobre todas as províncias e permaneceu na capital do império. Atendendo a um pedido seu, o rei concordou que seus companheiros assumissem cargos políticos importantes no reino e, por isso, separaram-se: “E pediu Daniel ao rei, e constituiu ele sobre os negócios da província de Babilônia a Sadraque, Mesaque e Abednego; mas Daniel permaneceu na porta do rei” (Dn 2.49). A imagem do rei Nabucodonosor foi levantada no campo de Dura, distante cerca de dez quilômetros da Babilônia. Tudo indica que Daniel não estava presente ou foi dispensado de ter de demonstrar sua lealdade ao rei devido à sua elevada posição.


Como José, filho de Jacó, conseguiu guardar alimentos durante sete anos e onde? Teria utilizado um método milagroso para conservá-los (Gn 41.1-37)?

Naquela época, os cereais, plantas cujos grãos serviam de base à alimentação, especialmente o trigo, eram a principal fonte do sustento humano. O método de conservação era mediante os recursos naturais: os silos (fossos cavados na terra para depósito e manutenção dos cereais e das forragens verdes) e os celeiros (que permitiam a preservação dos alimentos por um longo período de tempo). A Bíblia narra que José abriu todos os celeiros: “Havendo, pois, fome sobre toda a terra, abriu José tudo em que havia mantimento, e vendeu aos egípcios; porque a fome prevaleceu na terra do Egito” (Gn 41.56). Todavia, não diz nada que houve milagre neste processo de armazenamento, embora o próprio Faraó tivesse reconhecido que em José havia o “espírito de Deus” e que não existia ninguém tão sábio e ajuizado quanto ele: “E disse Faraó a seus servos: Acharíamos um homem como este em quem haja o espírito de Deus? Depois disse Faraó a José: Pois que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão entendido e sábio como tu” (Gn 41.38,39).


O que podemos saber a respeito da epístola escrita à igreja de Laodicéia (Ap 3.14-22)?

Diferentemente das cidades vizinhas de Hierápolis, que possuíam fontes térmicas medicinais (quentes) e Colossos, que se abastecia de água fria da montanha, Laodicéia, apesar de ser uma cidade próspera e rica, recebia seu suprimento de água de uma fonte distante que chegava à cidade por meio de tubos. Em conseqüência disso, a água era morna e pouco potável. Cristo utiliza essa situação e, por analogia, orienta a igreja a abandonar a sua mornidão espiritual. Após um terremoto na região, enquanto outras cidades estavam aceitando a ajuda imperial, o povo de Laodicéia a rejeitou, porque, segundo seus moradores acreditavam, eram ricos e não tinham necessidade de nada: “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu”(Ap 3.17).

Essa cidade também era muito conhecida pela sua fabricação de lã macia e preta, por seus vestidos caros feitos desse material, por sua escola de medicina e por um “pó frígio”, do qual se fazia um colírio bem conhecido. Daí a importância do versículo 18: “Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas”.

Como podemos ver, há um padrão nas mensagens enviadas a cada uma das igrejas: uma mensagem de louvor; uma mensagem de repreensão; um título simbólico de Cristo, adaptado às necessidades da igreja; uma promessa àqueles que vencem; e uma referência histórica que esclarece um pouco a mensagem. Laodicéia é a única que não recebe elogios, porque era uma igreja “nem quente, nem fria”, chamada de “infiel testemunha”, e para quem Cristo se apresenta como o Amém, a Testemunha fiel e verdadeira.


É verdade que o apóstolo Paulo escreveu três cartas aos coríntios? Qual delas se perdeu? Temos algum versículo bíblico que nos esclareça sobre seu tema ou conteúdo (1Co 5.9-11)?

Paulo visitou pela primeira vez a cidade de Corinto quando de sua segunda viagem missionária: “E depois disto partiu Paulo de Atenas, e chegou a Corinto” (At 18:1). Quando já estava em Éfeso, ouviu falar das desordens cometidas naquela igreja. Supõe-se que, nessa época, tenha feito uma visita apressada à cidade: “Eis aqui estou pronto para pela terceira vez ir ter convosco, e não vos serei pesado, pois que não busco o que é vosso, mas sim a vós: porque não devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos” (2Co 12.14). Portanto, a última visita foi feita depois de escrever a segunda carta aos coríntios. A primeira carta, por sua vez, foi escrita quando o apóstolo estava em Éfeso, durante sua terceira viagem missionária, em 55 d.C., aproximadamente.

Podemos supor que houve uma carta anterior que não chegou até nós. Seu conteúdo instruía os crentes daquela cidade a se separarem dos irmãos que praticavam atos imorais: “Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem” (1Co 5.9); fazia um pedido de oferta para os cristãos da Judéia que estavam padecendo necessidades, talvez em virtude das perseguições: “Ora, quanto à coleta que se faz para os santos, fazei vós também o mesmo que ordenei às igrejas da Galácia” (1Co 16.1-4); além de tratar de outros assuntos relacionados a problemas na congregação.

Posteriormente, uma família de Corinto visitou Paulo, para informá-lo sobre algumas divisões que estavam surgindo na igreja daquela cidade. Provavelmente, também lhe trouxeram uma carta da igreja fazendo certas perguntas relativas à conduta cristã: “Ora, quanto às coisas que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher” (1Co 7.1). Para corrigir as desordens e responder às perguntas foi que Paulo escreveu aquela que conhecemos como sua primeira epístola aos coríntios.


Há um “capítulo de ouro” no livro do profeta Jeremias? Qual é e por quê?

Jeremias profetizou mensagens de condenação ao povo de Israel, que tinha abandonado a fé. Cobre um período que vai desde o décimo terceiro ano do reinado de Josias até a primeira parte do cativeiro da Babilônia e é um último esforço para salvar Jerusalém do cativeiro babilônico, que acabou acontecendo em, aproximadamente, 600 a.C.

Não há uma ordem cronológica em seus relatos. Algumas mensagens de tempos posteriores aparecem perto do início do livro, enquanto outras, consideradas as primeiras, aparecem no final. Todavia, podemos dizer que seus capítulos estão assim distribuídos:

Cap. 1 – Trata da chamada e da comissão de Jeremias.
Caps. 2-25 – Uma mensagem geral de repreensão à Judá.
Caps. 26-39 – Mensagens detalhadas de exortação, juízo e restauração.
Caps. 40-45 – Mensagens para depois do cativeiro.
Caps. 46-51 – Profecias referentes às nações.
Cap. 52 – Traz um retrospecto do cativeiro de Judá.

O capítulo mais conhecido do livro de Jeremias, o de ouro, e também o mais citado em pregações, é o 18, uma mensagem da casa do oleiro: “A palavra do Senhor, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas. Como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer. Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel” (Jr 18.1-6).

O elemento descritivo desse capítulo nos mostra que o poder de Deus em tratar as nações segundo a sua soberana vontade pode ser simbolizado pela formação dos vasos pelo oleiro. Da mesma forma como o oleiro fazia com o vaso, Deus podia moldar Israel. Se continuassem em sua rebeldia, o Senhor poderia destruí-los como a um vaso; se, porém, demonstrassem arrependimento, Deus poderia tornar a construí-los. Como Israel persistiu em sua apostasia, Deus o rejeitou. Isso está simbolizado pela quebra do vaso.

Bibliografia

Bíblia de Estudo de Genebra
PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia livro por livro. 26ª ed., São Paulo, Editora Vida, 2005.
HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley (NVI), Edição revista e ampliada, São Paulo, Editora Vida, 2001.

Preparado por Marcos Heraldo Paiva

Participantes desta edição

Rogério Fortunato de Lima
Rodinei Dias
George Gonçalves
Naor Marques
Adriana Silvano

 

O que significa, e de onde provém, a expressão “Leão da tribo de Judá”, atribuída a Jesus?


O que significa, e de onde provém, a expressão “Leão da tribo de Judá”, atribuída a Jesus?

E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis aqui o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, que venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos” (Ap 5.5).

O emprego desse título, pelos membros da tribo da qual Jesus descendeu, era metafórico. A figura do leão decorava o emblema do estandarte que representava a tribo de Judá, tanto em viagens quanto em incursões militares.

Em todas as épocas (e também nos dias atuais), o leão representa a força e o poder que, nos tempos antigos, eram atribuídos, ou pelo menos desejados, pelas linhagens reais e guerreiras.

A esperança judaica, neste aspecto, não era diferente, porque o Messias que os judeus esperavam viria, segundo sua carnal compreensão, na pessoa de um grande guerreiro, de um grande monarca que, ao derrotar todos os inimigos de Israel, daria completa libertação ao povo.

Não é provável que a tribo possuísse um animal desse porte como um bichinho de estimação, uma vez que a força do leão e a ameaça que representa o tornam um perigo para todos.

O próprio Deus, pela palavra de seu profeta, assemelha-se a um leão, manifestando, dessa maneira, o tamanho do seu poder, para que o homem pudesse mensurar (Os 5.14). Em Apocalipse 5.5, esta metáfora, agora em referência a Cristo, é novamente destacada, quando da ocasião em que o ancião descrevia a visão a João, na ilha de Patmos.

O texto apocalíptico surge como um fragmento correlato de Gênesis 49.9, empregado pelo autor inspirado, Moisés, para enumerar as características de cada uma das doze tribos de Israel. E, ao manifestar-se a respeito da tribo de Judá, diz tratar-se de um “leãozinho que subsiste da presa”; isto é, daquele cuja presença e ação os inimigos não podem escapar.


Ana teve sete ou seis filhos?

Os fartos se alugaram por pão, e cessaram os famintos; até a estéril deu à luz sete filhos, e a que tinha muitos filhos enfraqueceu” (1Sm 2.5).

Visitou, pois, o SENHOR a Ana, que concebeu, e deu à luz três filhos e duas filhas; e o jovem Samuel crescia diante do SENHOR” (1Sm 2.21).

Ana, em seu cântico, procedido segundo o costume das mulheres judias que alcançavam ventre frutífero, quando diz que teve sete filhos, não se refere à prole que ainda estava por gerar, mas, sim, ao número que representa a totalidade e a perfeição de Deus.

É interessante notar que não há qualquer profecia anterior a este cântico relacionada ao número de filhos que Ana teria. Logo, Ana não poderia adivinhar a quantidade exata de sua prole. Por isso, como já foi dito, menciona um número de extrema representatividade na cultura hebréia.

Ana inicia seu período maternal com a concepção de Samuel (1Sm 1.9-20). Depois, concebe mais três filhos e duas filhas (1Sm 2.20,21).

Fora de qualquer comparação mística, temos na numerologia judaica uma série de correlações entre números e acontecimentos, como, por exemplo, o número “3”, que não era simbólico, mas, às vezes, era repetido em uma frase que alguém desejava que fosse conhecida como verdade.

O número “4” dava a característica do que era completo. Vejamos: “quatro” letras constituíam o nome de Deus (YHWH), “quatro” braços do rio Éden (Gn 2.10), “quatro” reinos mundiais (Ez 37.9).

O número “7” relacionava-se efetivamente ao sagrado. Podemos ver isso em vários exemplos, como quando Cristo orienta Pedro sobre quantas vezes ele deveria perdoar os pecados de seu irmão contra si, ou seja, “setenta vezes sete” (Mt 18.22), que seria o mesmo que “completamente”.


Se a narrativa do rico e Lázaro não é uma parábola, mas história real, como os evangélicos defendem, gostaria, então, de saber como o rico pôde sentir sede, tendo em vista o fato de que ele, naquele lugar, não estava em matéria, mas em alma e espírito?

E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama” (Lc 16.24)

Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que nem todas as correntes atestam que esta parábola é uma história verídica, narrada por Jesus em conseqüência de seus atributos sobrenaturais.

Por outro lado, ainda que assim se defina o enredo anotado em Lucas 16.19-31, não devemos, da mesma forma, ignorar que a linguagem neotestamentária se acha repleta de simbolismos, usados por Deus para mostrar, de forma compreensível, as expectativas para o homem no mundo post-mortem.

Assim, a descrição do desejo arrogante do rico, que pleiteava de Abraão que determinasse a Lázaro que lhe refrescasse os lábios com um pouco de água, parece nos esclarecer os reais tormentos que aguardam os homens no hades, conforme é chamado o lugar de tormento para todos aqueles que rejeitaram o nome de Jesus para que fossem salvos.

Tal questionamento, no entanto, é compreensível, visto que, efetivamente, um corpo material não carece de alimento, água, descanso ou de qualquer outro suprimento que, normalmente, necessitaríamos para que pudéssemos transpor a nossa existência na terra. Todavia, é importante que saibamos distinguir quais as regras de interpretação aplicáveis a cada contexto das Escrituras.

Para este caso, o que ocorre é uma metáfora do sofrimento que se dá no outro plano. Tal tormento é tão insuportável, que seria o mesmo que sermos submetidos às brasas de uma pira incandescente ou trancafiados no interior de um forno de panificação em plena atividade.

Essa figura de linguagem aparece nos discursos cristãos sempre que o Mestre se referia aos danos sofridos pelas almas no inferno (Mc 9.44,46,48).


Há um episódio estranhíssimo na Bíblia, sem paralelo nos demais textos: a luta entre Jacó e o anjo (Gn 32.24-32). Segundo a Palavra, os anjos possuem poder, mas em relação ao anjo com o qual Jacó lutou, pareceu haver quase uma equivalência de forças, visto que Jacó pôde resisti-lo durante muito tempo. Mais do que isso, Jacó o deteve (o segurou) e, segundo meu entendimento, até o coagiu a abençoá-lo. Em minha igreja, os irmãos cantam esse episódio, mas sem raciocinarem a respeito. Gostaria que fizessem uma exegese do mesmo, se possível com referências de pensadores cristãos e judeus.

É realmente complexo dirimir esta questão em poucas palavras. Algumas posições expostas até aqui têm sua razoabilidade, como, por exemplo, a que afirma o seguinte: embora Jacó tenha ficado enfraquecido por ter sido tocado no nervo da coxa, ele se agarrou de tal forma em seu opositor que o anjo, para não lhe ferir mais do que havia ferido, se permitiu ficar detido.

Já no aspecto físico da “luta” em referência, temos que o pedido do anjo — “Deixa-me ir” — foi um reconhecimento do sucesso de Jacó, conforme lemos nos versículos 25 e 28. Ou seja, o anjo teve de ferir Jacó para se desvencilhar dele e, em seguida, trocou o seu nome para Israel.

Como se observa em todo o restante do contexto bíblico, a intenção de Jacó, quando empreendeu aquele ato, não era outra senão ser abençoado e, provavelmente por isso, sua vida fora poupada. Deus, obviamente, poderia ter fulminado Jacó sem misericórdia, mas a insistência do hebreu revelava seu interesse na ação divina e na salvação.

Ao requerer a bênção, Jacó, em verdade, atua como um vencedor diante daquele embate insólito, não deixando, porém, de reconhecer o caráter divino e sobrenatural do ser que se encontrava em sua presença. Por isso, pede: “Abençoa-me”. E fora miraculosa a forma como o anjo, apenas por tocar em Jacó, o deixou aleijado.

Uma lição que Deus provavelmente quis ensinar a Jacó seria aquela que destaca as limitações dos homens em relação a Deus, o que, até então, Jacó não havia compreendido.

Por último, resta, ainda, o pensamento que mostra Jacó diante de uma circunstância que predizia sua condição sobre as coisas espirituais, ou seja, que ele granjearia vitória nesta parte, desde que aprendesse a se submeter e a orar. E esse último aspecto ficou demonstrado na cena final do episódio, quando Jacó brada, dizendo: “Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva”, o que significa que Jacó agradeceu por ter sobrevivido a tal embate, por não ter perecido de morte.

Preparado por Marcos Heraldo Paiva


Participantes desta edição:
 

Waldir Sabino
Juliano B. Dantas
Divalcir da Silva
Daniel Soares Meuer
Rodolfo Nascimento

Jesus , Ele era o Messias?



Em João 1.29-34, fica bastante claro que João Batista sabia quem era Jesus. Por que, então, enviou seus discípulos, conforme Mateus 11.2,3, para que perguntassem a Jesus se Ele era o Messias?

Vejamos, respectivamente, os textos bíblicos em referência:

“No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo [...] E eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo [...] E eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus”.

“E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, enviou dois dos seus discípulos, a dizer-lhe: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?”.

Pois bem, uma primeira avaliação da dúvida de João Batista pode ser dirimida pelo fato de o precursor do Salvador do mundo, predestinado para tal missão, estar encarcerado. Ou seja, a dúvida estaria motivada pela incompreensão do revés que lhe sobreveio.

O fato de Mateus pouco usar a expressão Cristo é outro fator relevante no esclarecimento da questão. O texto diz: “E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo...” (Mt 11.2), e isso soava como uma revigorante esperança de que, afinal, Cristo estava entre os homens. E essa esperança apontava para um Cristo cujo perfil seria de um nobre guerreiro, com poder para libertar Israel de seus opressores. Assim, presumia-se que o Cristo prometido jamais poderia ser assediado pelos homens, seria intocável. Mas este não era o testemunho de vida de Jesus, o carpinteiro de Nazaré.

A resposta dada por Jesus aos emissários de João Batista, versículos 4 e 5, tranqüiliza o nosso coração quanto à identidade de Jesus como sendo o Cristo de Deus.

O que Paulo estava querendo dizer quando perguntou, em Romanos 3.7: “Se pela minha mentira abundou mais a verdade de Deus para glória sua, por que sou eu ainda julgado também como pecador”?

Em verdade, Paulo não estava admitindo que era mentiroso ou que tinha proferido alguma mentira. Nos versículos 5 e 7, vemos que ele está apontando para situações hipotéticas empregando a partícula condicional “se” em seus questionamentos. Assim, constatamos que o apóstolo discursava com um suposto inquiridor judeu que tentava atribuir um caráter injusto a Deus, o que não procede. A referida situação é apenas uma proposta hipotética. Neste caso, Paulo lança mão de um mero recurso discursivo, empregado por ele para evangelizar os romanos. Ao usar este argumento, Paulo estava contrastando a postura do judaísmo, que nega a eficácia da lei pelo seu não-cumprimento, e defendendo a fé, que justifica sem que haja lei para estatuí-la.

Por que Deus, em Êxodo 7.1, disse a Moisés que ele seria colocado como deus diante de Faraó? Este versículo não dá margem para justificar que o ser humano é deus?

“Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta”.

A intenção de Deus era que houvesse uma representatividade visível de si mesmo diante de Faraó. E Moisés seria este representante, a quem Deus usaria para manifestar seu poder ao governante do Egito, como quando derramou as dez pragas que assolaram os egípcios e seu monarca.

Quanto à fértil imaginação dos sectários acerca desta ou de outras incalculáveis passagens bíblicas (Cf. Bíblia de Estudo Apologética), não devemos, de forma alguma, considerá-la. Caso contrário, teremos de viver retificando os textos sacros para evitar que os detratores continuem corrompendo a Bíblia.

Além disso, a interpretação das Escrituras segue algumas regras básicas costumeiramente observadas pelos cristãos evangélicos. Por outro lado, os sectários não estão interessados na real e correta interpretação dos textos bíblicos, querem apenas fazer valer suas conveniências, criando interpretações e até versões bíblicas que atendam aos próprios interesses doutrinários, como no caso das testemunhas de Jeová e a TNM (Tradução do Novo Mundo).

Qual é a diferença entre tribulação, provação e tentação?

Existe uma certa sinonímia entre estes termos, mesmo nos textos bíblicos. E, por conta disso, uma definição sobre os três ocorreria numa linha muito tênue, por meio da qual tentaremos empregar a distinção dos três:

Tribulação. Pode ser resumida pela ocorrência de qualquer situação adversa que cause dano, dor, angústia, tristeza, além de outros sentimentos negativos.

Provação. É outra situação aflitiva que impele sua vítima a superar alguma dificuldade pela qual esteja passando. No contexto bíblico, a provação tem um objetivo espiritual importante no exercício da fé e no conseqüente amadurecimento do crente.

Tentação. Parece ser uma atribuição exclusiva do diabo (1Co 7.5; Tg 1.13). O objetivo dessa investida é fazer que o cristão desista de sua caminhada na fé. Ou, quando não, macular o nome do cristão e o seu testemunho, macular a Igreja e até mesmo o nome de Cristo.

Se analisarmos a situação vivenciada pelo justo Jó, veremos que os três termos estão adaptados, já que Satanás pediu para “tentá-lo”, no que Deus permitiu, vindo sobre o inocente Jó grande “tribulação”. Mas, ao final de tudo, por sua resistência à sua “provação”, Jó foi galardoado.

Em Gênesis 11.1,6-9, a Bíblia diz que toda a terra tinha uma língua só. Mas em Gênesis 10.5 há menção de diversas nações, cada qual com a sua própria língua. Como podemos entender esta ambigüidade?

“E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala” (Gn 11.1).

“Por estes foram repartidas as ilhas dos gentios nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, entre as suas nações” (Gn 10.5).

Antes de qualquer coisa, é preciso distinguir dialeto (ou melhor, expressões regionais) de língua, como se comparássemos o paulista ao baiano, e este ao carioca. Todos falam o mesmo idioma: o português, mas cada um tem as suas expressões regionais distintas. Uma frase carregada de cultura nordestina pode soar ininteligível ao mineiro, e vice-versa.

O mesmo ocorria naquela época, portanto, dependendo da região em que se estava, algumas expressões soariam com sentido diferente daquela que normalmente o visitante utilizava em sua região de origem.

Um prático exemplo disso é aquele que atesta diferenças na pronúncia dos efraimitas e dos gileaditas, conforme Juízes 12.6. Os efraimitas não eram capazes de pronunciar a palavra “chibolete”, e essa dificuldade estava relacionada à cultura desse povo e à adaptação de sua língua, o que os denunciava: “Então lhe diziam: Dize, pois, Chibolete; porém ele dizia: Sibolete; porque não o podia pronunciar bem; então pegavam dele, e o degolavam nos vaus do Jordão; e caíram de Efraim naquele tempo quarenta e dois mil”.

Outro aspecto referente ao idioma do Antigo Testamento é o fato de o hebraico ser uma língua limitada quanto ao vocabulário. Assim, onde lemos “línguas” em trechos que se referem aos períodos em que o hebraico predominava, podemos ler, inequivocamente, “dialetos”. (Veja foto da Pedra Roseta, considerada uma chave para decifração dos hieróglifos egípcios – Museu Britânico, Londres).

O povo da assíria tinha alguma relação com Assur?

“Desta mesma terra saiu à Assíria e edificou a Nínive, Reobote-Ir, Calá [...] Os filhos de Sem são: Elão, Assur, Arfaxade, Lude e Arã” (Gn 10.11,22).

Assur era um dos netos de Noé, mas não possuía a mesma piedade do avô. Os assírios empregavam uma expressão referente a seu país cujo significado é: “a terra do deus Assur”. Conseqüentemente, está claro que os assírios são descendentes de Assur, neto de Noé.

A Assíria está situada na região da parte mais alta do rio Tigre, e seu nome deriva das ruínas da cidade de Assur, instalada às margens do mesmo rio, que, por sua vez, herdou o nome do próprio Assur, provável neto de Noé.

Referência bibliográfica:

GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. Editora Mundo Cristão, 1999.
CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Editora Candeia, 1998.
ARCHER, Gleason. Enciclopédia de dificuldades bíblicas. Editora Vida, 1997.
Bíblia Apologética. Instituto Cristão de Pesquisas, 2000.
HALLEY, Henry Hampton. Manual Bíblico de Halley. Editora Vida, 2001.

Preparado por Marcos Heraldo de Paiva

Participantes desta edição:

Dionísio Galvino Filho
Sergio L. Foganholli
Delberto Lyrio Rodrigues
Elizabeth Barreto
Reinaldo dos Santos
Denilson da Silva Roque

 

A Bíblia registra o ato de “lançar sortes”. O que isso significa?


A Bíblia registra o ato de “lançar sortes”. O que isso significa?

No mundo antigo, o ato de “lançar sortes” era uma forma comum de adivinhação ou também de se conhecer a vontade dos deuses. Havia várias maneiras de se lançar sorte, porém, a mais utilizada era a que empregava flechas de cores diferentes. A Bíblia relata vários casos em que Deus se valeu desse método para fazer prevalecer sua vontade, uma vez que é Senhor até mesmo sobre as sortes: “A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda a determinação” (Pv 16.33).

Somente como ilustração, transcrevemos dois textos bíblicos que encerram o assunto. No Antigo Testamento, no livro do profeta Jonas, Deus utiliza um grupo de marinheiros pagãos, com grande sentimento religioso, para fazer prevalecer sua vontade divina, culminando com a conversão de todos após o mar se acalmar: “E diziam cada um ao seu companheiro: Vinde, e lancemos sortes, para que saibamos por que causa nos sobreveio este mal. E lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas” (1.7). No Novo Testamento, no livro de Atos, esta prática também é citada uma vez, quando os apóstolos utilizaram o método para escolher o substituto de Judas Iscariotes, ato precedido de deliberação e oração: “E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias. E por voto comum foi contado com os onze apóstolos” (1.26).

Quem são os pobres de espírito que herdarão o reino dos céus?

Os “pobres de espírito” ou “humildes de espírito” são aqueles cuja necessidade espiritual é maior (Mt 5.3); ou seja, aqueles cujo coração não é altivo ou soberbo e que têm consciência da necessidade de buscar a retidão de Deus. Em Lucas 6.20, aparece apenas a expressão “os pobres”, sem a palavra “espírito”, o que nos leva a crer que Jesus está-se referindo aos materialmente pobres. Em Salmos 9.18, temos que estes dois tipos de necessidades convivem habitualmente, mesmo não sendo idênticas: “Porque o necessitado não será esquecido para sempre, nem a expectação dos pobres perecerá perpetuamente”. Em detrimento de tudo isso, o apóstolo Paulo deixa claro que a graça de Deus está disponível àqueles que buscam o Senhor com fé (Rm 5.15).

Davi matou Golias com a funda ou usou a espada do próprio gigante para lhe tirar a vida?

“Assim Davi prevaleceu contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e feriu o filisteu, e o matou; sem que Davi tivesse uma espada na mão. Por isso correu Davi, e pôs-se em pé sobre o filisteu, e tomou a sua espada, e tirou-a da bainha, e o matou, e lhe cortou com ela a cabeça; vendo então os filisteus que o seu herói era morto, fugiram” (1Sm 17.50,51).

Golias já estava morto quando Davi tomou-lhe a espada e lhe cortou a cabeça. Há uma diferença nos verbos empregados no original hebraico. O verbo “matou” do versículo 51 tem o sentido de liquidar.

Por que Jesus amaldiçoou uma figueira sem frutos, visto que estava fora da época de produzi-los?

“E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas, porque não era tempo de figos. E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto” (Mc 11.13,14).

A figueira sem frutos representava o Israel infrutífero. O profeta Jeremias (cap. 24), utiliza os figos para representar o juízo sobre Jerusalém. A maldição foi lançada sobre a figueira, não só pela falta de frutos, mas, principalmente, por causa de sua aparência enganosa. Podemos fazer um paralelo prático para compreender por que Jesus amaldiçoou a figueira que se achava infrutífera em decorrência da época. Em João 7.6, Jesus afirma que o tempo dos discípulos “sempre está pronto”; ou seja, após a conversão, todos estamos aptos a produzir frutos para o reino de Deus em qualquer tempo. Mas, muitas vezes, nos preocupamos tão-somente em demonstrar (de forma aparente) que somos cristãos. E isso apenas, para Deus, não basta! Aqui, temos, ainda, uma correlação com o texto de João 15.1-5, que diz: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto. Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado. Estai em mim, e eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”.

Jeconias era filho de Jeoiaquim ou de Josias?

“E os filhos de Josias foram: o primogênito, Joanã: o segundo, Jeoiaquim; o terceiro, Zedequias; o quarto, Salum. E os filhos de Jeoiaquim: Jeconias, seu filho, e Zedequias, seu filho” (1Cr 3.15,16).

“E Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos na deportação para Babilônia” (Mt 1.11)

A palavra “filho”, na Bíblia, pode significar “neto” ou até mesmo “bisneto”, da mesma forma que a palavra “gerou” é usada relativamente a um pai ou avô. Isto acontece porque, no original, a palavra “gerou” pode ser entendida como “tornou-se ancestral de”, e aquele que foi gerado é entendido como “o descendente de”. Jeconias, também conhecido como Joaquim ou Conias, reinou em 597 a.C., durante a primeira grande deportação para Babilônia, sob o comando de Nabucodonosor. A Bíblia cita Jeconias em várias passagens como sendo filho de Jeoaquim (ou Eliaquim), segundo filho de Josias (V. tb. 2Cr 36.9,10; 2Rs 24.8-16; Jr 24).

Como interpretar os “excrementos humanos” na preparação da cevada, conforme descrito em Ezequiel 4.12?

“E o que comeres será como bolos de cevada, e cozê-los-ás sobre o esterco que sai do homem, diante dos olhos deles”.

A utilização de esterco animal como material combustível era natural naquela época. Entretanto, o esterco humano era considerado impuro: “E entre as tuas armas terás uma pá; e será que, quando estiveres assentado, fora, então com ela cavarás e, virando-te, cobrirás o que defecaste” (Dt 23.13). No texto do profeta Ezequiel, Deus pretendia fazer uma ilustração dramática para Israel acerca de suas desobediências para com Ele. Israel seria disperso e não mais poderia observar os mandamentos mosaicos quanto à alimentação, passando a comer coisas que, para o povo, eram impuras. Após o protesto do profeta, de que nunca havia se contaminado, o Senhor reconsiderou sua decisão permitindo que fosse utilizado esterco bovino: “E disse-me: Vê, dei-te esterco de vacas, em lugar de esterco de homem; e sobre ele prepararás o teu pão” (v.15).

O que são binitarismo e diteísmo?

Diteísmo. Doutrina filosófica aceita por diversas religiões e seitas que admitem a existência de dois princípios opostos e distintos, como, por exemplo, bem e mal, corpo e espírito, essência e existência, entre outros. Os adeptos dessa filosofia pregam, ainda, uma forma de politeísmo, uma vez que acreditam que existem apenas dois deuses.

Binitarismo. Essa doutrina não classifica o Espírito Santo como uma pessoa da Trindade, antes, crê somente em duas pessoas na Divindade: o Pai e o Filho. Esta era a crença defendida pelos monarquianos, nos dias anteriores ao Concílio de Nicéia. Os binitarianistas criam que o conceito de deidade atribuída ao Filho deveria incorporar a idéia de Espírito Santo.
 

Preparado por Marcos Heraldo de Paiva


Participantes desta edição

Moisés Silva
Norberto Guimarães
Renato Sallas
Vanderlei Ferreira
Reynaldo Santos
Jacione Pereira de Araújo